Fazia bastante tempo que imaginava como seria porder me corresponder com alguém regularmente. Queria me corresponder com um homem que combinasse comigo. Teria que ser um intelectual, com o mesmo nível de formação acadêmica, nem muito velho, nem muito novo, disposto a pôr a frente da relação o interesse afetivo e de busca de auto-conhecimento. Não sabia como fazer isto. Precisava de um e-mail discreto que não me revelasse assim tão facilmente. Isto na minha idéia de uma boa medrosa do ridículo. Enfim decidi fazer isto. Criei o e-mail e peguei o primeiro site que encontrei e fiz minha inscrição. Estava tentando colocar a foto e resolvi dar uma olhada nos pretendentes.
Uau! Nada contra as pessoas, porque não as conheço, mas a aparência e descrição deles e do que pretendiam me assustou. Ou eu era muito velha, ou me achava nova demais para alguns carrancudos, quase bandidos. Estou ciente que não sou nenhuma beldade em plena juventude, mas ainda me vejo como fui. Meu coração é jovem e quero continuar assim. Constatei que os homens disponíveis nestes sites têm um nível escolar de 2o. gruau incompleto! O que mais impressiona é a sinceridade em dizer que não gostam de ler. Por mais que me esforçasse sei que não teria assunto com eles. Eu quero me perder em digressões e não ter medo de enveredar-mos para a sensualidade, mas o intelecto para mim é fundamental. Parafraseando Vinícius de Moraes, eu diria: Que me perdoem os burros, mas intelectualidade é fundamental! Eu fiquei muito impactada e me vi num mato sem cachorro. Queria sair dali correndo.
Imaginei que os outros sites não seriam diferentes, já que este estava entre os mais acessados. Eu me vi fora da casinha, do planeta. Na mesma hora pensei naquela expressão que tenho usado quando me sinto assim: 'Tragam o catálogo dos outros planetas recém descobertos que vou comprar uma passagem para um deles'. Partiria naquela hora mesmo e sem olhar para trás. Eu me senti ridícula e injuriada com esta carência de interlocutores. É como se tivesse que desistir da interlocução finalmente.
Quando se experimenta a interlocução com alguém que se torna uma pessoa especial para a gente é muito difícil aceitar outros padrões. Eu já experimentei isto. É divino. Será que os homens estão se transformando em seres medíocres? Será que nunca mais vou encontrar alguém que possa me preencher no verbo, na criação, na cama, na lealdade, na amizade para sempre?
Tratei de deletar minha inscrição, mesmo depois de ver a minha frente vária telas de questionamentos do administrador, perguntando: 'Tem certeza que você não quer ficar neste site, aqui já ocorreram muitos namoros!' Fui implacável, cliquei na opção: 'Não encontrei ninguém interessante!'.
Talvez eu também não seja interessante para eles. Tudo bem. Isto eu consigo aceitar. O que eu não suportaria é que encontrasse alguém interessante e ele me rejeitasse, porque a frieza dos padrões elaborados assusta. Nem sei se isto aconteceria, saí antes de experimentar mais uma trajédia.
Aos poucos percebo que estou me especializando em anti-sociabilidade. Enfim, serei a heremita que sempre quis ser. Enfim, serei eu mesma a vovó Donalda. Só espero poder continuar a ler e escrever sobre a vida que experimento. Talvez seja a melhor coisa a fazer, afinal de contas.
quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010
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